Resonancias: Revista de investigación musical

ISSN 0719 - 5702 (en línea); ISSN 0717 - 3474 (impresa)

N°43 /

Noviembre 2018

Portada Resonancias 43 WEB

Artículo

Música e tecnomorfismo: surgimento do conceito e estudos preliminares   

Por Bryan Holmes

Departamento de Composição e Regência do IVL, UNIRIO (Brasil).    
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Resumo

Este trabalho aborda o conceito de tecnomorfismo aplicado à musica. Embora se trate de um termo relativamente novo, a sua utilização atual é apreciada em disciplinas diversas como o design industrial, a psicologia, a arquitetura, as artes plásticas ou as ciências da computação. Na pesquisa em música, a literatura que visita este tópico mostra uma concentração exclusiva na música contemporânea de tradição ocidental, em especial quando a écriture instrumental ou vocal recebe a influência de técnicas e processos originados na música eletroacústica. Além de investigar as origens do conceito estudado, se realizou um levantamento e revisão bibliográfica, confrontando sistematicamente os textos em português que mencionam o tecnomorfismo em música. No final, é proposta uma ampliação do estudo deste assunto para outros gêneros musicais, oferecendo breves exemplos.

tecnomorfismo - mecanomorfismo - música e tecnologia - sonologia

Abstract

This work focuses on the concept of technomorphism applied to music. Though it is a relatively new term, it is currently used in diverse fields such as industrial design, psychology, architecture, arts or computer science. In music research, texts visiting this subject are exclusively concentrated on western contemporary music, markedly when instrumental or vocal écriture is influenced by techniques or processes originated in electroacoustic music. Together with an investigation about the origins of the studied concept, a review and discussion of the literature was carried out, systematically comparing texts written in Portuguese in which technomorphism in music is mentioned. Towards the end of the paper, we propose an expansion in the study of this subject to other musical genres, offering brief examples.

technomorphism - mechanomorphism - music technology - sonology

Resonancias vol.19, n°36, enero-junio 2015, pp. 95-113. 
DOI: 10.7764/res.2015.36.6
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Introdução

Lembro de certa vez, nos primeiros anos do século XXI, ter visto uma série de pinturas que me marcaram profundamente: era o trabalho de uma artista plástica chilena que, com técnicas “tradicionais” como o acrílico sobre tecido, reproduzia imagens levemente “pixeladas” (como se tivessem sido ampliadas num computador antes de ir para o quadro), já outras pinturas adotavam a forma de “nuvens de tags” (vide figura 1) ou, então, de imagens modeladas previamente em código ASCII. Apesar do impacto no momento de apreciar estas obras, só vim refletir melhor sobre o conceito em comum por trás delas quando me deparei com sua aplicação no campo da composição musical. Tratava-se do tecnomorfismo, objeto de estudo do presente artigo.

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Figura 1/ Acima: Aranda, Yto. Nube de tags. 2007. Acrílico sobre tela. 140 x 200 cm. Abaixo: detalhe.

O termo tecnomorfismo vem sendo utilizado nas últimas décadas para referir-se à atribuição de certas características, a princípio extrínsecas e próprias das novas tecnologias[1], tanto a seres, como a objetos, produtos, obras de arte, formas de pensar etc. No início apresentado como mecanomorfismo (Waters 1948; Caporael 1986), o conceito foi definido em oposição ao antropomorfismo. Nas décadas posteriores –aparentemente junto com o desenvolvimento digital–, o termo derivou em tecnomorfismo, segundo explica Lum (2011) em estudo recente sobre a influência do tecnomorfismo na percepção do mundo pelo ser humano. A autora chama a atenção para a incipiente literatura sobre o assunto e como a comunidade científica tem demorado a pesquisar um tópico de tamanha importância, em face à velocidade com que a tecnologia nos impacta e muda a nossa percepção.

Na música, além do diretamente observável nas obras e do comunicado pelos compositores em notas de programas, entrevistas ou outros documentos, as maiores contribuições teóricas encontram-se em Catanzaro (2003), que define o conceito de tecnomorfismo baseando-se num texto pioneiro de Wilson (1989) e sugere uma primeira classificação analítica dos procedimentos composicionais que se encontram na “metáfora do estúdio”. O trabalho de Catanzaro, escrito em português, vem ressoando principalmente numa parte da literatura brasileira relacionada à música contemporânea, composição e sonologia. Pela revisão dessa literatura, encontraremos que o tecnomorfismo tem sido abordado apenas no contexto da música espectral e de alguns outros compositores que se inserem na tradição ocidental escrita, atingindo unicamente do período moderno ao contemporâneo. Por outra parte, predominam menções sem maiores explicações do termo e, em geral, complementando outros assuntos.

Assim, considero importante avançar mais um passo nas raras investigações dedicadas ao tecnomorfismo, mostrando em que estágio se encontra sua discussão teórica no ambiente de pesquisa em música e mapeando o surgimento do próprio conceito para melhor entendê-lo. Não se constitui como objetivo, no âmbito específico deste artigo e no estágio atual da pesquisa, a realização de sub-classificações ou de uma nova definição fechada do termo, apesar de tocar tangencialmente em tais questões por motivos sobretudo metodológicos.

Origens em outras disciplinas

Segundo a tese da psicóloga Heather Lum (2011), o conceito de tecnomorfismo vem sendo utilizado desde meados do século XX, começando por um artigo publicado na Psychological Review em 1948, onde o autor R.H. Waters “o definiu e descreveu (então chamado de mecanomorfismo) [...] por meio da menção aos avanços mecânicos que estavam tomando lugar e como isso trouxe à tona questões sobre o significado de ser humano” (Lum 2011, 14, grifo meu). Mais tarde este conceito voltaria a ser estudado, ainda sob o nome de mecanomorfismo, em artigo de L. R. Caporael, publicado na revista Computers in Human Behavior em 1986, estabelecendo a dicotomia antropomorfismo/mecanomorfismo, onde o primeiro termo teria relação com “um esquema usado pelo público em geral, ou comunidade convencional”, enquanto o mecanomorfismo “pode ser pensado como um esquema (embora uma elaboração de antropomorfismo) usado pela comunidade científica, especialmente por pesquisadores na inteligência artificial e ciências cognitivas” (Caporael 1986, 216-217). Waters também concebe o mecanomorfismo em oposição ao antropomorfismo, e Caporael inverte constantemente este binômio para demonstrar a complexidade de se pensar numa ambígua “máquina humana”[2].

O antropomorfismo inicialmente estaria associado às formas humanas atribuídas a entidades não-humanas (em especial deidades de povos primitivos), porém outras características além do aspecto visual, como emoções ou atitudes, também seriam relacionadas “ao vento, sol, lua, árvores, rios e animais”, utilizadas como “explicações causais para eventos que não seriam explicáveis de outra maneira, e como tentativa de manipulá-las com mecanismos sociais tais como súplicas ou ameaças[3]. Antropomorfizadas, entidades não-humanas tornam-se entidades sociais” (Caporael 1986, 215). Todavia, segundo o autor, o “antropomorfismo contemporâneo” teria lugar mesmo havendo previamente um conhecimento objetivo, como no caso de um habitante da cidade que atribui sentimentos ou motivações humanas à causa do mal funcionamento do seu carro, por exemplo, estabelecendo em maior ou menor grau relações sociais entre uma pessoa e um automóvel.

Sobre o uso do termo tecnomorfismo propriamente, Lum observa que “apenas um punhado de estudos têm sequer mencionado o tecnomorfismo em alguma forma” e que, do ponto de vista científico, “é algo que os pesquisadores têm demorado para investigar” (Lum 2011, 2). Talvez se deva a essa razão a dificuldade de determinar um primeiro autor em ter usado o termo, digamos, oficialmente ou cientificamente.

Antes de entrar diretamente no âmbito das artes e em específico da música, parece necessário pensar no tecnomorfismo aplicado ao que chamarei de produtos. Podemos aqui incluir disciplinas como a arquitetura, o design industrial (ou design de produtos) e as artes plásticas, por exemplo.

Em pesquisa sobre o Museu Guggenheim de Bilbao (Espanha) do arquiteto Frank Gehry, Irene Nero diz ter “cunhado” o termo tecnomorfismo para denominar um estilo jamais antes visto, numa edificação (figura 2) que não resistia às categorizações comuns:

Fiz derivar este termo do fato de que o Guggenheim Bilbao tem um visual tecnologicamente futurista, é feito de materiais tecnologicamente avançados, como titânio, e foi criado com tecnologia eletrônica (e-technology), a mais futurista dentre as tecnologias atuais. Eu acredito que o edifício olha para o futuro, como o imaginamos, e não para um passado biológico (Nero 2004, 15-16).

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Figura 2/ Museu Guggenheim de Bilbao, do arquiteto Frank Gehry, terminado em 1997. Foto: Emilio Panizo.

A autora chama de tecnomorfismo tanto este “novo estilo” –enquanto produto estético– como também o seu processo de construção, desde a concepção do design com ajuda de software até a realização em termos de manufatura, “processo que Gehry precisava para produzir construções mais 'artísticas', embora oferecendo uma boa relação custo-benefício” (Nero 2004, xii). A mudança no paradigma arquitetônico seria um resultado direto do fato de Gehry ter usado um software aeronáutico[4] para design e construção, o qual integra “Engenharia Assistida por Computador (CAE) e Manufatura Assistida por Computador (CAM), assim como Desenho Assistido por Computador (CAD)” (Nero 2004, 59). Identifica-se aqui o mesmo princípio que opera, em música, na Composição Assistida por Computador (CAC)[5], com uma fase inicial de formalização, seguida da programação e execução algorítmica que constrói, em tudo ou em parte, o produto, com ou sem intervenção humana posterior. Similar tecnologia tem impactado ainda o mundo da arquitetura e da construção: a 3D building, que permite uma grande liberdade nas formas, não sendo mais limitadas pelos processos das tecnologias tradicionais[6]. Mas estabelecer que há tecnomorfismo em qualquer obra musical assistida por computador pode levar-nos a uma ilusão ou, quando menos, a um grande problema do ponto de vista estético, como discutirei em breve.

No design industrial também podemos apreciar diversos artefatos, objetos, dispositivos e construções que incorporam o tecnomorfismo, seja unicamente no seu aspecto final, seja na sua funcionalidade, seja em diferentes etapas do seu processo (como no caso do Guggenheim). Vemos isto da Bauhaus até o design hi-tech de hoje. A Bauhaus, primeira escola de design do mundo, já combinava o design com artes plásticas e arquitetura, tendo influenciado muitas escolas de arquitetura posteriores. Veja-se por exemplo Oscar Niemeyer e Brasília, sua cidade funcionalista (segundo princípios do modernismo inaugurados pela Bauhaus e Le Corbusier) e ao mesmo tempo com forma de avião; ou seu Museu de Arte Contemporânea em Niterói, com forma de disco voador.

Parece-me razoável comparar um “produto” concebido por Niemeyer como sua cidade-avião (Brasília), com a música-trem de Honegger (Pacific 231), ou ainda com música mais extrema como a futurista. No manifesto A Arte dos Ruídos, Luigi Russolo expressa:

A vida antiga foi toda silêncio. No século dezenove, com a inovação das máquinas, nasceu o Ruído. Hoje, o Ruído triunfa e domina soberano sobre a sensibilidade dos homens. [...] Desfrutamos muito mais combinando idealmente os ruídos de trem, de motores de combustão, de carruagens e de multidões vociferantes, do que ouvindo novamente, por exemplo, a “Heróica” ou a “Pastoral” (Russolo 1913, 9-11).

Considerando o design e o resultado sonoro dos instrumentos que compunham a orquestra de ruídos futurista, como os intonarumori, quiçá possamos dizer que os mesmos respondem à ideia de mecanomorfismo, se for tecido um paralelo com a evolução terminológica. Ou, então, lembremos do Ballet Mécanique de George Antheil, com sua idiossincrasia essencialmente mecanomorfista[7]. Por outro lado, a transposição das “novas tecnologias” (que no caso do áudio poderiam ser a gravação, a reprodução e o processamento eletrônico –analógico e digital– dos sinais) para a criação de música instrumental e vocal responderia à ideia de tecnomorfismo, englobando e servindo como uma espécie de atualização da ideia mais antiga de mecanomorfismo. É importante lembrar que, diferente da arquitetura, construção, design e artes plásticas, os autores na área de música preferem fazer um uso restrito do termo para referir-se apenas à abstração de uma técnica e não à aplicação direta da tecnologia num produto musical cuja existência dependa dela, como a música eletroacústica, a techno etc. Acaso não seria redundante focar-se no tecnomorfismo nesses gêneros? Certamente será, se adaptarmos as seguintes premissas:

Não é antropomórfico atribuir características humanas a humanos. É antropomórfico atribuir características humanas a máquinas (ou rios, ou pedras) que não possuam características humanas. Mas não é antropomórfico atribuir características humanas a máquinas que de fato já tenham as características atribuídas a elas (Caporael 1986, 228, grifos dele).

Da mesma forma, então, e seguindo esse raciocínio, não seria tecnomórfico atribuir características tecnológicas a uma obra cuja condição de possibilidade são as novas tecnologias. Poderíamos pensar talvez em alguma exceção, como no caso da concepção criativa-abstrata com auxílio tecnológico (i.e., CAC), mas a inclusão desta categoria traz consigo o problema de que a tecnologia utilizada no processo de criação, ao invés daquela representada esteticamente, não permite necessariamente a sua identificação no produto final. Resultará assim metodologicamente inviável para qualquer pesquisa que pretenda realizar um mapeamento, sem mencionar que incontáveis criações hoje são auxiliadas, em diversos planos, por ferramentas computacionais. Tecnicamente falando, até um software de editoração musical é considerado uma ajuda à composição, o qual não implica em qualquer proposta estética. Lembremos que as primeiras experiências de composição assistida por computador (Caplin, Pinkerton, Klein e Bolitho por exemplo) reproduziram estilos de música tradicionais, sem que o produto oferecesse uma contribuição musical propriamente.

Sobre a marca estética intrínseca deixada pela tecnologia, neste ponto é importante compreender um conceito como “sinal tecnográfico”, trazido à tona por Rodolfo Caesare que o define como:

A marca estética deixada por alguma tecnologia em algum produto ou comportamento cultural. Por exemplo: a escrita musical está para sempre tecnograficamente sinalizada na música que somente veio a ser desenvolvida por meio dela. Cada obra polifônica ocidental remete à criação dessa tecnologia, por conta de sua (a polifonia ocidental) inegável condição de resultante daquela (a tecnologia). O temperamento igual deixou profundo sinal tecnográfico na música que, a partir dele, integrou artifícios de modulação (Caesar 2008, 286).

O sinal tecnográfico pode inclusive referir-se a limitações próprias de uma ou outra tecnologia, plasmadas também como limitações que moldam a estética na escritura musical. Embora seja preciso reconhecer a especificidade de cada termo, pode existir uma linha tênue entre o sinal tecnográfico e como o tecnomorfismo finalmente se manifestam em música. Enquanto o sinal tecnográfico parece implicar numa relação de causa e efeito, quase como algo imposto e inevitável, o tecnomorfismo, nos termos em que o venho discutindo, deixa a impressão de ser sempre, em alguma medida, um ato mimético e voluntário.

Mapeamento e revisão da literatura

Pela bibliografia levantada[8], parece que a primeira menção de tecnomorfismo em música encontra-se na revista Entretemps nº 8, em artigo de Peter Niklas-Wilson (1989) sobre a música de Gérard Grisey e a estética do grupo L'Itinéraire. Desde então, qualquer outra menção vem associada ao espectralismo e, em alguns casos, estende-se tal associação a outros compositores modernos ou contemporâneos da tradição ocidental escrita. Wilson não aventura uma definição do termo, mas providencia exemplos, especificamente na música de Gérard Grisey, identificando a dualidade biomorfismo/tecnomorfismo[9], mesma dualidade à que se refere Nero (2004) a propósito do Guggenheim.

A pesquisa por bibliografia internacional teve pouquíssimos resultados, contando com o artigo de Wilson e a recente tese de doutorado de Tatiana Catanzaro (2013a), ambos em francês. A tese de Catanzaro complementa de alguma forma seu trabalho começado no Brasil dez anos antes, sobre o qual me referirei mais adiante. Um dos textos relevantes em inglês é a tese de John Dack (1989) que, embora não mencione o termo que investigo, dedica-se à relação entre música eletroacústica e a composição instrumental/vocal entre 1948 e 1970 na Europa. O restante são respectivamente traduções para o francês e inglês de parte das dissertações de Catanzaro e Holmes, publicadas como resumos de comunicações apresentadas em dois simpósios diferentes da Electroacoustic Music Studies Network (Catanzaro 2013b; Holmes 2009b).

Na literatura em português encontram-se muitas mais referências ao tecnomorfismo musical, desde 1999 até 2013, todas elas em textos publicados no Brasil. De acordo com a figura 3, a frequência com que esses textos aparecem mostra um crescente uso do termo com o passar dos anos. Contudo, a revisão desses trabalhos denota uma demora no estabelecimento de um estudo sistematizado e abrangente do assunto, que apresente claramente estas ideias não apenas no espectralismo e na música contemporânea, mas na música em geral, independente de gêneros, sub-gêneros ou estilos.

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Figura 3/ Quantidade de textos em português publicados em cada ano.

 

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Tabela 1/ Algumas características de textos em português que mencionam o tecnomorfismo em música.

Na tabela 1 aprecia-se, dentre esses 22 textos em português, que: 4,55% usa tecnomorfismo no seu título; 27,27% inclui tecnomorfismo como palavra-chave; 54,55% explica com suas próprias palavras o conceito de tecnomorfismo em mais de duas linhas [10]; 27,27% cita o artigo pioneiro de Wilson; 0% reúne simultaneamente as três características anteriores; 72,73% aborda o tecnomorfismo além da música espectral; 0% aborda o tecnomorfismo além da música ocidental de tradição escrita.

Além do que estes números evidenciam, revisando e comparando o conteúdo de cada texto, afloram outras inferências, como quais são os compositores pré-espectrais mais estudados, destacando-se Ligeti, Varèse, Xenakis e Stockhausen. É interessante reparar que quase todos estes compositores, assim como Giacinto Scelsi e depois os espectralistas, renegaram em maior ou menor medida a vanguarda serialista. Provavelmente, os tecnomorfismos tomados da música eletroacústica tenham ajudado a pensar novas estéticas vinculadas à liberdade expressiva[11] das músicas criadas em estúdio. Catanzaro afirma: “a descoberta de novas possibilidades sonoras, aliada ao impasse advindo da técnica intensamente rígida da música serial” levou certos compositores a desenvolver “procedimentos composicionais diversos [que] foram, em grande parte, uma resposta aos estímulos propostos pela música eletroacústica, ao mesmo tempo sendo profundamente influenciados por ela” (Catanzaro 2002, 4) [12]. Olivier Messiaen assegurou que “quase todos os compositores sofreram a influência da música eletrônica, mesmo se não a fazem” (apud Delalande 2007, 54).

Entretanto, Ivo Malec, um dos compositores que produziu música de extrema relevância no uso de tecnomorfismos (ao menos entre 1963 e 1968, onde a teoria do objeto sonoro permeia toda sua obra instrumental)[13], somente é abordado em Holmes (2009a; 2009b). Diz Malec sobre sua obra Sigma e o início desse período criativo:

O simples fato de se adotar uma outra denominação em relação a uma atitude de escritura nos orienta não apenas para uma mudança de percepção, mas também para uma mudança de ação composicional. A abordagem desta única problemática aportou-me todo o resto, todas as outras técnicas de estúdio que foram muito férteis como por exemplo a montagem, a filtragem ou ainda o simples ‘fade-in/fade-out’ no lugar do ‘crescendo/decrescendo’. Foi com esta obra que começou a minha aventura pessoal, essa de um perpétuo vaivém entre o estúdio eletroacústico e o ‘estúdio instrumental’ (MalecinCastanet et al. 2007, 33-34).

Outro compositor relevante neste sentido e pouco divulgado em certas latitudes –ao menos até pouco tempo atrás–, é o austríaco Georg Friedrich Haas. A obra mais bem sucedida da sua carreira, In Vain (2000/2002), apresenta um exemplo interessante de tecnomorfismo, onde se reproduz a “ilusão” auditiva dos Shepard tones[14], efeito que Haas reproduz e desenvolve na escritura orquestral, juntando simultaneamente escalas Shepard ascendentes e descendentes. Como veremos na próxima secção, não se trata do primeiro compositor a representar este tipo de efeito em sua música.

Helmut Lachenmann também contribui para o repertório tecnomórfico através do que é chamado de “música concreta instrumental”, sem ser contudo considerado nos trabalhos obtidos onde menciona-se o tecnomorfismo. Para encerrar a lista –que poderia ser facilmente continuada–, na mesma situação dos anteriores encontra-se Philippe Leroux, que mostra um enorme interesse no conceito, não só em suas próprias obras –algumas das quais possuem tanto uma versão eletroacústica como uma versão instrumental/vocal[15]–, mas também no aspecto pedagógico da composição.

Por enquanto sob uma perspectiva eurocêntrica, tenho mencionado aqui alguns compositores em cujas obras percebo a importância do tecnomorfismo e que não figuram na literatura revisada, a qual igualmente olha, em sua maioria, para o Ocidente.

Dos textos levantados, o único que se aprofunda maiormente, e que aborda de forma sistemática o assunto, é a dissertação de Catanzaro (2003), defendida na Universidade de São Paulo e que atualmente prepara sua publicação como livro. Teve considerável repercussão no Brasil e, não por acaso, dentre os textos na tabela 1 ele é citado em mais da metade dos trabalhos publicados posteriormente. A desproporção entre a literatura em português e em outros idiomas poderia sugerir que estamos diante de um jargão, limitado em grande parte a um círculo de autores radicados no Brasil. Porém os primeiros textos dentre eles, tanto de Ferraz (1999) como de Catanzaro (2002; 2003), remetem-se ao texto em francês de Wilson (1989). Posteriormente, a maioria dos novos autores tomamos ao menos uma destas referências, pois simplesmente não haviam outras e foi assim que muitos tivemos conhecimento do tecnomorfismo na teoria. Curiosamente, em outros idiomas não se encontram novas referências ao estudo deste conceito, se não pelo estudo caso a caso, de forma desunificada e desligado do termo.

A revisão da literatura indica que seria em Catanzaro (2003) onde se encontra uma primeira[16] definição de tecnomorfismo em música, mesmo deduzida das observações de Wilson. Lê-se em nota de rodapé:

Tecnomorfismo, de acordo com a acepção de Peter Niklas Wilson (1989), refere-se à utilização metafórica de um processo tecnológico aplicado em um meio diverso ao qual este foi concebido; no caso, à música composta para instrumentos tradicionais. Ou seja, a abstração de uma ideia tecnológica (como a manipulação de uma fita magnética, a análise de um espectro sonoro via computador etc.) aplicada à música tradicional instrumental ou vocal (Catanzaro 2003, 12).

Neste trabalho (que estuda a influência da música eletroacústica na produção instrumental/vocal), após os capítulos Uma Visão Histórica eUma Visão Estética, Catanzaro dedica o terceiro –Uma Visão Analítica– à “metáfora do estúdio”, subdividido em Processos Simulativos (técnicos) e Processos Metafóricos (conceituais). Nos processos simulativos ela inclui: difusão por alto-falantes/espacialização; efeito Doppler; filtragem; gestualidades eletroacústicas; forma da onda sonora; manipulações com o magnetofone; fita magnética; reverberação e eco; mixagem; síntese sonora aditiva. Nos processos metafóricos temos: blocos sonoros; formantes; modulação em anel.

Na minha dissertação de Mestrado (Holmes 2009a) há análises de música composta no último século, descrevendo traços tecnomórficos em vários momentos. Há também a tentativa de demonstrar que a influência acontece em ambos os sentidos, não só do eletrônico para o instrumental. A eletroacústica absorveu a linguagem musical que a precede, considerando-se principalmente as tecnologias da escrita, as concernentes à luteria de instrumentos acústicos e o idiomatismo de cada um, e as técnicas de execução instrumental. Catanzaro confirma:

[...] se houve uma transposição, num primeiro momento, dos conceitos composicionais da música instrumental para a música eletroacústica, o tecnomorfismo trata, já nos primeiros anos da descoberta eletroacústica, do caminho contrário: desta vez, foi a música instrumental que se transformou na linguagem influenciada, e não na influenciadora, apesar de haver, obviamente, uma relação dialética perene entre estes dois limiares da linguagem musical (Catanzaro 2003, 12).

Ampliação, delimitação e exemplos nas “outras” músicas

Diante da constatação de que o tecnomorfismo em música vem sendo estudado dentro de certos limites restritos, proponho aqui uma investigação ampliada para as “outras” músicas. Surgirão então novas problemáticas:

Quais devem ser os critérios para a escolha de fontes instrumentais a serem analisadas? Salvo exceções, na música dita erudita contemporânea a divisão entre sons instrumentais acústicos e sons concretos/eletrônicos é clara o suficiente, inclusive quando se trata de música eletroacústica mista. Contudo, uma banda de pop, rock ou rap –por mencionar alguns dos gêneros mais produtivos dentro da música popular– utiliza, no mínimo, instrumentos elétricos, isto quando o set não é completamente eletrônico ou digital. Onde, então, acaba o domínio do instrumental e começa o da eletrônica? Quando é pertinente, ou não-redundante, incluir as novas tecnologias? Encontramos tecnomorfismo também na música chamada de étnica ou world music, mesmo nas criações realizadas em regiões remotas que parecem não ser atingidas diretamente pelas novas tecnologias? Seria necessário aqui re-pensar quais são as formas que o conceito de tecnologia adota no contexto da música? Por último, segundo que perspectiva existe o tecnomorfismo? Essa metáfora da tecnologia é tal segundo o criador, segundo o ouvinte ou segundo o pesquisador?

Cito um exemplo que ilustra a última questão: Carlos Palombini (2013), em artigo que analisa o funk Na Faixa de Gaza é Assim, do MC Orelha, afirma reconhecer na voz de um verso a simulação do efeito de um pedal de wah-wah ou de um som modulado por LFO [17]. Após audição, é aceitável dizer que poucas pessoas teriam a habilidade ou imaginação para reconhecer esses efeitos, e que o MC, ao que me parece, não concebeu a metáfora propositalmente a partir de alguma tecnologia de áudio.

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Figura 4 / Representação de sinal em vermelho (envelope de intensidade). No espectrograma, variações de altura aproximativamente sugeridas pelas linhas ondulantes, com as intensidades traduzidas em cores, do vermelho (máximo) ao magenta escuro (mínimo) (Palombini 2013, 13).

Palombini utiliza, dentre outras justificativas como a análise fonética, o espectrograma e a forma de onda que vemos na figura 4 para fazer-nos entender visualmente a sua hipótese. O uso de sonogramas é de alta valia e pode, em determinadas situações, ser a chave para alguma constatação. Foi assim por exemplo que em minha dissertação apresentei três espectrogramas, descobertos por acaso após deparar-me com uma observação de Gérard Grisey em sua nota de programa para Vortex Temporum, onde comentava que as três secções do primeiro movimento são inspiradas em três formas de onda simples [18]. Desta forma, o conceito de um oscilador de sintetizador analógico é levado para a escritura de instrumentos acústicos, de sons mais complexos, através da sua gestualidade e textura, embora resulte impossível saber se o compositor estava consciente da visualidade que resultaria no espectro, como se aprecia na figura 5.

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Figura 5 / Espectrograma de amostras das três partes do 1º movimento de Vortex Temporum, de Gérard Grisey. A primeira representaria a forma de onda senoidal, a segunda a quadrada e a terceira a dente-de-serra.

Retomando os exemplos tecnomórficos na música popular, relembro aqui os Shepard tones, mencionados com anterioridade pela sua aparição na obra In Vain, de Haas. Ora, o mesmo efeito aparece em músicas de bandas como Queen, The Beatles, Pink Floyd e Beck, dentre outros. O efeito é produzido com diferentes meios e com diferente grau de precisão e de eficiência enquanto ilusão auditiva. A impressão é que esta sonoridade “ilusória” poderia estar em algum caso ligada à psicodelia, porém no disco do Queen A Day At The Races ganha mais um significado poético, ao ligar o final do disco com o início do mesmo, dando a ideia de uma circularidade ou eterno retorno, ideia intrínseca aos próprios Shepard tones. Especialmente notável é também a forma como aparece na canção Lonesome Tears de Beck, pois realiza os “tons” num arranjo para cordas, com notas dentro da harmonia da música e em ambos os sentidos simultaneamente, ascendente e descendente, tal como realizado por Haas.

Para continuar com a ideia de circularidade, a seguir apresento um exemplo que é, em parte real e em parte hipotético, onde a influência mútua entre o mundo instrumental e o eletrônico é posta em evidência. Fernando Iazzetta observa em seu livro Música e Mediação Tecnológica:

Quando os sequenciadores e sintetizadores baseados em protocolo MIDI foram definitivamente integrados aos modos de criar música nos anos de 1980, a questão que se colocava era o caráter maquinal dos sons e de seu alinhamento no tempo imposto por um pulso rígido. Ocorre que hoje é justamente essa regularidade quase sobre-humana que sustenta as músicas eletrônicas de dança. Enquanto nas décadas de 1980 e 90 muitas empresas dedicavam-se a inventar truques para adicionar um certo balanço, uma certa bossa às sequências MIDI e aos loopings criados por samplers, toda uma geração cresceu habituando-se a ouvir música confeccionada pela invariância dos aparelhos digitais. Como aponta Bob Ostertag, “nosso gosto aclimata-se à tecnologia mais rapidamente que nossa habilidade de inovar tecnologicamente”. De fato, desde meados da década de 1980, cada vez mais a música popular esteve sob o domínio do pulso eletrônico (Iazzetta 2009, 83, grifos dele).

Temos que, além da “regularidade quase sobre-humana” descrita acima, os dispositivos ofereciam outras qualidades sobre-humanas, como por exemplo as máquinas de ritmos que eram capazes de simular (com timbres sintéticos) o groove de um baterista com maior número de extremidades do que um ser humano normal[19], ou viradas com velocidades e precisão inalcançáveis. Hoje em dia existem bateristas que, fruto do desenvolvimento e aprimoramento de novas técnicas, conseguem muitas dessas façanhas, além de imitar timbricamente as máquinas –que antes tentaram imitar o humano–, seja pelo uso de peças especiais nos drumkits ou da sua adaptação ao modo de um instrumento preparado, seja através do “toque” diferenciado, por vezes como verdadeiras técnicas estendidas. O principal expoente e pioneiro dessa escola é Jojo Mayer, que tem chamado a atenção dos novos bateristas tocando drum & bass como se de um autômato se tratasse. Imaginemos agora que uma empresa dedicada ao desenvolvimento de instrumentos virtuais (como plug-ins VSTi, o aplicativo standalone) decida realizar amostras do kit de Mayer, tocadas por ele próprio, e que o usuário deste kit virtual consiga fazer viradas ou tocar um groove de extrema complexidade com apenas abaixar uma tecla do seu controlador MIDI, ou seqüenciando com seu mouse no piano roll. Teríamos, assim, um percurso que vem da influência instrumental acústica, emulada pelas máquinas de ritmos eletrônicas, que posteriormente são imitadas por um baterista humano que, por sua vez, é imitado no mundo digital, tornando-se, de algum modo, um fenômeno cíclico. Esta é uma tendência atual, não só no mundo dos bateristas. Existem diversos instrumentos virtuais que imitam sonoridades específicas de guitarristas, baixistas, tecladistas e inclusive de produtores. O baterista e compositor da banda de metal Meshuggah, Tomas Haake, foi incluso num pacote de samples chamado Drumkit From Hell, para expansão dos programas EZdrummer e Superior Drummer, da popular empresa Toontrack. Eis que, hoje, a banda compõe suas complexas linhas de bateria no computador [20], com o pacote signature do seu baterista e utilizando esses mesmos tracks na mixagem de ao menos dois álbuns. Só depois Haake irá reproduzir e decorar esses “rolos de pianola” para tocá-los ao vivo.

Considerações finais

O conceito de tecnomorfismo, inicialmente chamado de mecanomorfismo e contraposto ao antropomorfismo ou ao biomorfismo, é estudado desde meados do século XX e vem sendo aplicado nas áreas mais diversas. Na pesquisa em música observa-se um tímido desenvolvimento teórico a respeito, que não condiz necessariamente com o impacto que a tecnologia tem na concepção estética de obras ou trechos musicais. O trabalho musicológico de Tatiana Catanzaro, como exceção, aborda o assunto de forma mais profunda, aventurando-se numa primeira definição de tecnomorfismo em música, que mais ou menos reflete a acepção que venho moldando no decorrer deste artigo. Após examinar o total da literatura, descobrimos uma alta predominância de textos publicados no Brasil, em crescimento desde que Wilson (1989) foi citado por Ferraz e Catanzaro. Porém vemos que a discussão é ainda incipiente, tanto a nível local como internacional, e que até agora mostra-se incompleta.

O presente estudo revelou por exemplo uma inexistente produção teórica sobre o assunto fora do âmbito da música moderna e contemporânea “de concerto”. Surge, assim, um novo objetivo: ampliar o estudo acadêmico do tecnomorfismo para outros gêneros musicais que ainda não foram pensados sob esta perspectiva analítica. Tentou-se aqui uma primeira investida.

Permanecem contudo perguntas em aberto e ainda lacunas um tanto escuras. Por exemplo, poderíamos tentar estabelecer se todo tecnomorfismo é necessariamente mimético e voluntário, e se realmente é oposto, neste sentido, ao sinal tecnográfico. Os exemplos oferecidos parecem em sua totalidade responder às primeiras características, mas é preciso mergulhar mais profundamente, inserindo estes estudos preliminares no diálogo filosófico sobre estética e sobre arte como representação do mundo na contemporaneidade. Poderíamos, ainda, procurar um método para abordagem de tecnomorfismos não-miméticos enquanto processos que, contudo, reflitam o uso da tecnologia como contribuições para a estrutura ou para a superfície do produto musical, se é que isso é possível.

Há sem dúvida outros tópicos relevantes para serem colocados na discussão a partir desta espécie de estado da arte. Espero que o artigo tenha instigado a reflexão sobre os aspectos nele levantados, e que os leitores, enquanto ouvintes, encontrem seus próprios tecnomorfismos através de suas escutas particulares.

 

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[1] Esta expressão, que a princípio implica num dinamismo pelo que é considerado como “novo”, será utilizada no decorrer do texto numa acepção bastante ampla, sem limitar-se às tecnologias da informação e da comunicação, por exemplo. Para efeitos de estudar o tecnomorfismo que, como veremos, abarca e atualiza o mecanomorfismo, é preciso levar em conta essa abertura conceitual.

[2] O autor ilustra o problema trazendo à tona o teste de Turing –considerado o precursor da computação–, ou imitation game, no qual procura-se detectar se uma máquina possui ou não inteligência própria. O referido teste foi de grande importância para a filosofia da inteligência artificial.

[3] O deus cristão e de muitas outras religiões atuais são passíveis tanto da antropomorfização visual como da cognitiva social.

[4] CATIA (Computer Aided Three-dimensional Interactive Application) foi desenvolvido originalmente para reproduzir, na construção, as complexas curvas do avião de guerra Mirage.

[5] Malt (2009) prefere Écriture Assistida por Computador para diferenciar a fase de composição algorítmica.

[6] A construção em 3D opera de forma similar a uma impressora 3D, porém em grande escala, utilizando cimento de secagem rápida no lugar de plástico. Não produz entulho e permite fabricar uma casa em menos de 24 horas.

[7] Antheil caracterizava-se por defender uma estética por assim dizer mecanicista, não apenas nas suas composições (cujo ápice neste sentido é o Ballet Méchanique), mas também na forma dele tocar o piano, com alto grau de precisão e sem qualquer flexibilidade, como se fosse um MIDI de hoje. O Ballet faz amplo uso de pianolas com este mesmo propósito, em meio a uma instrumentação totalmente inusitada para sua época.

[8] Apesar do meu interesse no assunto há vários anos, a bibliografia que tenho encontrado é deveras escassa. Realizei aqui uma pesquisa bibliográfica mais recente, utilizando apenas recursos da internet, mas com ferramentas diversas, em vários idiomas e grafias.

[9] Wilson concentra-se na análise de Partiels (1975), onde reconhece uma dialética entre bio e tecno- morfismo, um encontrando seus modelos criativos na natureza e nos organismos vivos, o outro na tecnologia.

[10] Exceto citação direta (sempre citando Catanzaro e/ou Wilson).

[11] Apesar das limitações técnicas à época.

[12] É interessante a observação que Catanzaro (2003; 2004) faz sobre o surgimento das práticas tecnomórficas no Brasil, onde a precariedade institucional e a falta de recursos tecnológicos levou mais de uma geração de compositores (que por isto abandonaram a eletroacústica ou que nem mesmo a experienciaram na prática) a escrever música para instrumentos acústicos que imitasse as tão prezadas sonoridades dos dispositivos eletrônicos.

[13] Vide Robert (2005), Castanet et al. (2007) e o terceiro capítulo em Holmes (2009).

[14] Consistentes em senóides separadas por oitavas, que ascendem –ou descendem– por graus conjuntos (ou a versão em glissandi criada por Jean-Claude Risset), produzindo um efeito com a aparência de que o som nunca cessa de subir (ou descer), porém esse movimento continua estático no mesmo âmbito desde o início. Isto se consegue com o tratamento dinâmico nos extremos agudo e grave de cada senóide, as quais aparecem e desaparecem suavemente, seguindo uma função gaussiana.

[15] Neste mesmo espírito, vide Ferraz (2007), que realizou uma versão orquestral (Itinerários do Curvelo) de uma obra eletroacústica de Rodolfo Caesar (Tinnitus).

[16] Na verdade, existe um trabalho prévio (Catanzaro 2002), um avanço desta dissertação, onde se encontra a mesma definição no rodapé, que ganha citações em Costa (2003; 2006).

[17] Oscilador de Baixa Frequência.

[18] Outro tecnomorfismo observado no início de Vortex Temporum (este não mencionado pelo compositor) é a emulação de um multitap delay, demonstrado na prática com a realização de uma cópia do arpejo principal, gerado por síntese, ao qual aplicou-se o referido efeito de delay, variando seus parâmetros até conseguir resultados muito similares ao que se escuta nas interpretações da obra. O experimento, contudo, não se encontra documentado. Junto com esses exemplos, no terceiro capítulo de Holmes (2009a), justifico brevemente outros tecnomorfismos em obras de Grisey, Ivo Malec, Silvio Ferraz, Mahler, Stravinsky, Ravel, Varèse, Ruth Crawford e Fausto Romitelli.

[19] No videoclipe de Monkey Drummer, de AphexTwin e Chris Cunningham, ilustra-se com humor esse fato.

[20] Não só Meshuggah, mas várias outras bandas também estão fazendo isto com o Drumkit From Hell.

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