Resonancias: Revista de investigación musical

ISSN 0719 - 5702 (en línea); ISSN 0717 - 3474 (impresa)

N°40 /

Junio 2017

Portada 40

Reseña

Vários autores. 2016. Nuevos Aires Chilenos para Oboe. José Luis Urquieta, oboé solo. Gravação independente. Disco Compacto.

Por Lúcius Mota

Departamento de Música, Universidade Federal de Santa Maria
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Resonancias vol. 20, n°39, julio-noviembre 2016, pp. 211-212. 
DOI: 10.7764/res.2016.39.13
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Mota

 

Gravações para oboé, ainda que não raras, são poucas. Raras, essas sim, são gravações de música Latino Americana para oboé. Assim, um novo CD é muito bem-vindo. Quando se trata não apenas de um CD, mas de um CD duplo de obras exclusivamente para oboé solo de um único país, estamos diante de um fenômeno incomum. Quando além do CD o músico edita e publica todas as partituras, trata-se de algo indispensável.

José Luis Urquieta é oboísta que iniciou seus estudos musicais em La Serena, onde seu pai tem sido um importante professor de oboé na Universidade de La Serena. José Luis se transferiu para a Europa, estudando na Espanha, França e Alemanha. É ganhador do “Premio extraordinario de Fin de Carrera” do Conservatório Superior de Música de Islas Baleares. Entre os seus professores, talvez o que tenha lhe deixado uma marca mais profunda tenha sido Thomas Indermühle.

Foi esse mestre suíço que certa feita, é José Luis quem conta, pediu a seus alunos que preparassem um recital com obras de seus respectivos países. Uma tarefa relativamente fácil para a maioria se mostrou um sério problema para ele: não havia obras chilenas em número suficiente para um recital. Nos anos que se seguiram, José Luis trabalhou com uma intensidade febril para alterar essa realidade, a tal ponto que, não seria possível, hoje, em um único recital interpretar as obras chilenas que lhe foram dedicadas e que ele estreou. Na verdade, sua capacidade de articulação e generosidade artística transcendeu as fronteiras do Chile e hoje, compositores de diversos países da América do Sul lhe dedicaram obras.

Assim, o CD duplo que ele agora apresenta ao público é uma consequência natural de uma trajetória de esforço intelectual e artístico iniciada há quase uma década. O CD introduz 12 obras de 12 compositores nascidos entre 1930 e 1984. Fernando García e Guillermo Riffo representam a geração mais experiente. Há aqueles nascidos na década de 1970, como Fabrizzio de Negri Murillo, Julio Torres, Fernando Guede Rodríguez, Francisco Silva, Cristian Mezzano Barabona, Valeria Valle, Pedro Álvarez e Rodrigo Herrera, e aqueles nascidos na década de 1980, como Rodrigo Herrera, Miguel Farías e René Silva. Se há um amplo intervalo de tempo entre a data de nascimento dos compositores, as obras gravadas, todas inéditas, foram compostas entre 2008 e 2015.

O que poderia ser um apanhado de estilos diferentes, revela-se na verdade num conjunto de obras comprometidas com uma pesquisa de linguagem que poderia ser chamada de modernista, se alguém tem necessidade de um rótulo, ainda que este possa representar diversas correntes da música do século XX. Entretanto há algo em comum entre elas todas, uma vez que buscam expandir os limites do oboé, este instrumento que impõe tantas limitações, tanto aos compositores quanto aos intérpretes.

A exploração consciente e efetiva de novos efeitos e recursos que apenas nas últimas décadas do Século XX foram incorporados a esse antigo instrumento, tais como multifônicos, microtons, eletrônica, aleatoriedade, harmônicos, bisbigliandos, ou frulatos, demonstram que os compositores do Chile não devem nada a seus pares do Norte. Mas onde estaria a “chilenidade” dessa música?

A resposta é dada de forma convincente na apresentação do CD, escrita por Esteban Correa A., outro compositor com quem José Luis trabalha frequentemente. Esteban afirma que “la chilenidad de las obras recopiladas adquiere sentido en la medida que intérprete y compositor trascienden aquí las fronteras abstractas de la política –tanto nacional como global–, reconociendo en la cercanía el territorio ideal en que la música puede florecer”. Ora, se os compositores alçaram um voo alto, que transpõe montanhas, e eu como oboísta me sinto desafiado a interpretar essas obras que ampliam de forma consistente o repertório do instrumento, o que dizer do intérprete.

O artista é julgado por seu nível técnico e artístico, não apenas por seu esforço social de divulgar e ampliar a música de seu instrumento, nem por sua inigualável força de vontade, ou pela generosidade com que oferece a seus pares todas as suas descobertas.

José Luis Urquieta é um oboísta de primeira linha. Em nenhum momento a técnica parece lhe faltar, nada, nenhuma inflexão, a mais sutil, lhe escapa. Os compositores não encontraram ali outra coisa senão sua própria música revestida com o fôlego de vida que em todo o momento salta diante de nós, vibrante, entusiasmada, incendiária.

O esforço de José Luis em localizar obras que estavam esquecidas em gavetas, a forma como fez surgir um novo e brilhante repertório para oboé, a qualidade de sua interpretação, o profissionalismo, a Arte desse artista incomum, elevam a novo patamar a interpretação da música para oboé na América Latina. Que novos ares sempre venham da cordilheira.

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